Ter a coragem de abandonar o lugar onde você nasceu, desfazer-se de todos os seus pertences e garantir apenas o necessário em poucas bagagens, deixar pessoas queridas para trás e aventurar-se numa cansativa viagem de navio, por longos dias, rumo a uma terra que você só conhece por nome, cujas promessas de trabalho e riqueza soam tão distantes quanto o pensamento de um dia alcançar melhores condições de vida para sua família. Essa é uma história que todos já conhecem. É minha e também de muitos descendentes de imigrantes que hoje formam o multiétnico povo brasileiro.
Há exatamente 100 anos, desembarcava no porto de Santos, em São Paulo, a família de Antonio di Febbo, meu bisavô. Partiram de Atri, uma antiga cidade, fundada ainda pelos ilírios, no século X a.C., na região de Abruzos, Itália. Vinte e um dias depois, chegaram ao Brasil, o país das promessas distantes. Estavam esgotados, maltrapilhos, mas tinham muita vontade de trabalhar e conquistar um lugar ao sol. Trocaram o rigoroso inverno europeu pelo abafado verão tropical, trocaram um dialeto italiano pelo português do interior paulista, trocaram uma terra antiga e cansada por uma fresca e selvagem, trocaram medos por esperança e sonhos por planos…
Contava meu bisavô 28 anos de idade, vinha acompanhado da esposa, Carmela Giansante, e dos três pequenos filhos: Sabatino, de 6 anos, meu avô; Alessandro, de 4 anos; e Tomaso, de apenas 1 ano. O motivo que os levaram a cruzar o oceano em busca de uma nova vida é o mesmo de muitos outros imigrantes. Uma decisão que mudou para sempre suas vidas, uma escolha sem volta e que o destino permitiu ser relembrada agora.
Vencido o roteiro Santos-São Paulo, seguiram de uma fazenda a outra, trabalhando em muitas lavouras de café paulistas. Muito trabalho, pouco dinheiro. A vida no campo não era fácil, levantava-se cedo, fazia-se pão e café em casa, a enxada era a fiel companheira de todos os dias… Até que, enfim, o sonho se fez realidade: depois de juntar dinheiro com anos de dedicação, compraram o pedacinho de terra que agora era só deles, um sítio em Martinópolis, interior do estado de São Paulo. Terra que viu muitas alegrias e tristezas, batizados, casamentos e alguns funerais. Terra da infância de minha mãe.
Essa mesma terra também um dia ficou para trás, e hoje é apenas recordação de um tempo antigo, de uma história de força de vontade, de muito trabalho e, acima de tudo, de muita coragem… Coragem de mudar, de abandonar tudo que é familiar e confortável para ir em busca de um sonho além-mar, uma nova vida que hoje comemora 100 anos.




